OS DESAFIOS MACROECONÓMICOS DO NOVO MAIS VELHO EXECUTIVO

*PHD e MSC em Economia: concentrado em Desenvolvimento Económico; Especialista (Pós-graduado) em Métodos Quantitativos: Estatística e Matemática Aplicadas; Engenheiro Químico. José Marcolino | Engenheiro Químico

2022-10-10T07:00:00.0000000Z

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Media Nova

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OPINIÃO

Os desafios de Angola assentam na melhoria da qualidade de ensino Há alguns anos, o Presidente João Lourenço argumentou – se a memória não me atraiçoa – que faria a sua governação seguindo os pressupostos de dois presidentes: Lula, do Brasil e Deng Xiao Ping, da China. Confesso que fiquei completamente excitado, pois os dois constituíram os seus governos com base num capital humano robusto, baseado na meritocracia. Da mesma forma, nas primeiras aulas exijo que os meus alunos investiguem sobre a qualificação dos nossos policy makers. Confesso que caímos numa enorme tristeza, pois, em geral, as suas formações geram externalidades negativas em comparação à robustez técnica dos seus parceiros do Brasil, da China, de Portugal, da Namíbia, dos Estados Unidos, da Rússia, de Cuba, da África do Sul, de Cabo Verde, etc. Assim, a primeira indagação que faço para o nuclear desafio macroeconómico do novo/velho governo é: como negociar; como debater; como gerar políticas públicas eficientes; e quem ensina quem em questões de alta complexidade técnica como são os casos da Saúde, da Engenharia, do Direito, da Economia, ou seja, quanto à formação de Quadros Altamente Qualificados ou Capital Humano? É com base nesta indagação que vou me reter aqui, pois sem Capital Humano não há eficiente Política Pública! Os desafios macroeconómicos de Angola estão há tempo identificados, pois assentam na melhoria da qualidade de ensino, variável central que impacta em toda a política de gestão do Estado: “é um processo em cadeia que impacta na baixa qualidade de saúde, na baixa qualidade das infraestruturas, na baixa qualidade dos processos administrativos, na baixa qualidade alimentar, na baixa qualidade do debate político, na baixa qualidade de assessores estrangeiros, inclusive inseridos nos mais importantes órgãos monetários e financeiros, órgãos de Defesa e Segurança, sendo um perigo para a segurança nacional angolana”. Em 2012, o Presidente dos Santos disse que “começamos por investir para aumentar a quantidade e agora impõe-se que haja mais investimento para melhorar a qualidade do ensino que é prestado nas nossas escolas ”. Eu indaguei: “afinal, como é possível gerar sumo bom a partir de frutos não bons?” Nessa senda, em 2021, o Presidente João Lourenço argumentou que “todos nós reconhecemos que não temos um ensino de qualidade, precisamos de trabalhar, dar este passo, passar da quantidade do número de alunos matriculados e começarmos a prestar atenção para a qualidade do nosso ensino”. Não há dúvidas sobre a boa intenção do Chefe do Executivo angolano, no entanto, priorizar o capital humano tem sido o calcanhar de Aquiles da nossa política desenvolvimentista. Lula e Deng Xiao Ping fizeram isso nos seus países, sendo de altíssimo capital humano: basta olharmos o nível e grau de formação dos componentes dos seus governos. Lula atreveu-se a quebrar o paradigma ao colocar no governo seus oponentes políticos altamente qualificados: é o caso de Ricupero que representou na OMC, o Brasil, um país competente nas discussões internacionais. Lula aumentou os investimentos no ensino de Mestrado e Doutoramento com dedicação exclusiva (stricto sensu), enquanto nós – com apoio de muitos governantes – estamos a inflacionar o ensino sem valor agregado: com pouquíssimas excepções, o nosso ensino está em suicídio moribundo ao formarmos licenciados sem Licenciatura, especialistas sem Especialização; Mestres sem Mestrado e Doutores sem Doutoramento (PHD), muitos exercendo funções chaves no Estado, o que justifica o tipo de ensino que implantaram, para terem as benesses das Leis que participaram! Em 2014, citei na minha Tese de Doutoramento sobre o Crescimento e Segurança de Angola, a argumentação de um “consultor estrangeiro: “propus a reorganização da área de processamento de dados da Faculdade de Economia da UAN (posta em prática de imediato), colaborei com a reformulação curricular e fui muitas vezes convidado por ministros de Estado e autoridades governamentais e militares a fazer palestras e consultorias em ministérios, empresas e repartições, onde a minha experiência como cidadão brasileiro contava até mais que meus conhecimentos técnicos como economista, advogado ou administrador”. Por que buscar e pagar melhor os estrangeiros com baixa qualidade de ensino, ao invés de usar e potencializar o capital humano angolano e gerar uma classe média robusta, num ciclo virtuoso e excitante nacional? Por isto, fruto da nossa aberrante qualidade de ensino, temos um país com alto índice de pobreza e de impostos; alta ineficiência administrativa e burocracia; alta concentração de renda para baixa produtividade; não temos cursos de química pura, física pura, matemática pura, o que impossibilita a formação de Engenheiros, Médicos; fraca demanda agregada, o que implica uma cadeia produtiva não robusta. Portanto, como mudar este paradigma se muitos que estão em cima, geralmente agindo como árbitros e jogadores, sabem que – num Estado central – estariam em baixo, a estudar para aprender? São estes, os enormes desafios macroeconómicos, do novo/velho desafio do governo!

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