EFEITOS DO PETRÓLEO NA GESTÃO DE JOSÉ EDUARDO DOS SANTOS

O economista Paulo dos Santos divide os momentos da gestão do antigo Presidente, José Eduardo dos Santos, em três partes, sempre tendo o petróleo como principal fonte de receitas que impulsionou a construção de diferentes infraestruturas pelo país

Texto: Miguel Kitari Fotos: Daniel Miguel

2022-08-01T07:00:00.0000000Z

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Media Nova

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PERCURSO

Economistas e empresários reflectem sobre o impacto das medidas e políticas de José Eduardo dos Santos, ex-presidentes da República, em virtude do seu falecimento, a 8 de Julho passado, por doença. Destaca-se no seu percurso o facto de ter conduzido o país ao alcance da paz e do início do processo de reconciliação nacional, factor fundamental para a criação de um ambiente de negócio favorável, embora, decorridos 20 anos, o país continue dependente do petróleo. Aevolução económica de Angola sob gestão do presidente José Eduardo dos Santos pode ser subdividida em três momentos. Para Paulo dos Santos, estes momentos foram antes do alcance da paz, pós assinatura do acordo de paz, e o último mandato de cinco anos, que terminou em 2017. Em todo o caso, José Eduardo dos Santos geriu o país com os preços mais altos do barril de petróleo (180 dólares) e mais baixo (menos de 2 dólares) na década de 80 do século XX, no auge da guerra civil. “O período antes do alcance da paz foi caracterizado por altos índices inflacionários e consequente perda do valor da moeda nacional e a dolarização do sistema monetário angolano, em que circulavam simultaneamente o Kwanza e o Dólar dos Estados Unidos da Améria”, explicou. Infraestruturas Um segundo momento, na visão do economista, está relacionado ao período após a assinatura do acordo de paz, que registou grande crescimento económico, a construção e reconstrução de novas infraestruturas económicas e sociais. “O último mandato de 5 anos ficou caracterizado por uma crise económica interna profunda. Escassez de dólares no sistema monetário, derrapagem do valor de câmbio do Kwanza, perda de poder de compra da moeda nacional”, lembrou. Para o também professor universitário, o período após a assinatura dos acordos de paz é o que merece mais realce, por ter verificado os grandes feitos económicos durante a presidência de JES. Reforça que com o alcance da paz em 2002, a economia angolana registou uma sequência de eventos que vieram transformar o país, rumo à reconstrução, o crescimento económico e o desenvolvimento social, tendo sempre como base o petróleo. “Nesta senda, tivemos o crédito da China. Com a adesão ao FOCAC – Fórum de Cooperação China África, Angola beneficiou de créditos financeiros orientados maioritariamente para a reconstrução do país. Este crédito possibilitou o início da reabilitação das estradas, pontes e edifícios que tinham sido afectados durante o conflito armado. Por outro lado, com a descoberta de novos campos de produção em águas ultra-profundas, a produção do petróleo em Angola chegou à marca de dois milhões de barris por dia em 2008, tornando-se, na altura, no maior produtor de petróleo na região subsaariana”, destacou. Acrescenta que “com o crescimento do preço do petróleo- fruto da alta demanda internacional, no primeiro semestre de 2008 o barril de petróleo de referência Brent chegou a ser comercializado por 180 dólares, o que veio a melhorar a possibilidade de contrair novos créditos com juros baixos para Angola e garantir liquidez para o tesouro nacional”, referiu. O petróleo e o Kwanza O economista observa que, registando grandes receitas como resultado do aumento da produção e do preço do petróleo, o Kwanza ganhou estabilidade, ganhou poder de compra e passou a ser mais utilizado nas transações internas. Na sequência, A Lei Nº 2/12 de 13 de Janeiro de 2012 veio tornar obrigatório o pagamento de salários aos trabalhadores das empresas petrolíferas em Kwanzas. Diz ainda que, o bom ambiente económico possibilitou a estabilidade cambial entre o Kwanza e o Dólar, entre 2009 e 2014, o que serviu de incentivo para muitos angolanos apostarem no empreendedorismo de vária natureza, visando capitalizar o potencial do país. “No mesmo período, o país registou os mais altos índices de crescimentos do Produto Interno Bruto (PIB), o que se reflectiu no bem-estar das pessoas, embora não fosse na proporção desejada. O crescimento económico registado possibilitou a construção de novas cidades e urbanizações residenciais em todas as províncias do país, barragens eléctricas, campos de cultivo agrícola, estradas, portos, aeroportos e caminhos-de-ferro, escolas e hospitais”, enumerou. Para Paulo dos Santos, não menos importante é o facto de o país ter registado um investimento considerável estrangeiro directo no sector privado, da China e outros países, em parceria com empresários nacionais, que investiram na indústria, transportes e outros sectores de negócios.

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