O IMPACTO DA COVID-19 E DA GUERRA NO FLUXO DE REMESSAS

Texto: Redacção

2022-06-01T07:00:00.0000000Z

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Media Nova

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INTERNACIONAL

Os dados oficiais dos fluxos de remessas para os países de renda baixa e média (LMIC, na sigla inglesa – Low and Middle-income Countries) indicam um aumento de 4,2 por cento este ano até aos 630 mil milhões de Dólares. Isto segue-se a uma recuperação quase sem precedentes de 8,6 por cento em 2021, segundo o Relatório Migração e Desenvolvimento do Banco Mundial, divulgado no início do mês de Maio. Estes dados reflectem, de forma global, o impacto da pandemia da COVID-19 e, mais recentemente, da guerra na Ucrânia Aásias remessas para a Ucrânia, que é o maior beneficiário na Europa e na Central, deverão aumentar acima dos 20 por cento em 2022. No entanto, os fluxos de remessas para muitos países da Ásia Central, cuja fonte principal é a Rússia, deverão cair drasticamente. Estas quebras, combinadas com o aumentos dos preços dos fertilizantes, dos bens alimentares e do petróleo, deverão agudizar os riscos para a segurança alimentar e agravar a pobreza em muitos destes países. “A invasão russa à Ucrânia desen- cadeou crises humanitárias de migração e de refugiados e riscos para a economia global que ainda está a lidar com o impacto da pandemia da COVID-19”, disse Michal Rutkowski, Director Global do Banco Mundial para a Protecção Social e Empregos. “Impulsionar os programas de protecção social para proteger os mais vulneráveis, incluindo os ucranianos e famílias na Ásia Central, assim como todos os afectados pelo impacto económico da guerra, é uma prioridade chave para proteger as pessoas das ameaças de insegurança alimentar e aumento da pobreza.” Durante 2021, os influxos mostram fortes ganhos na América Latina e nas Caraíbas (25,3 por cento), na África Subsaariana (14,1 por cento), na Europa e na Ásia Central (7,8 por cento), no Médio Oriente e Norte de África (7,6 por cento) e no Sul da Ásia (6,9 por cento). As remessas para o Leste da Ásia e Pacífico caíram 3,3 por cento; excluindo a China, as remessas aumentaram 2,5 por cento. Excluindo a China, os fluxos de remessas foram a maior fonte de finanças externas para os países de baixo e médio rendimento desde 2015. O peso das remessas no PIB Os cinco primeiro países beneficiários de remessas em 2021 foram a Índia, o México (que substituiu a China), a China, as Filipinas e o Egipto. Entre as economias em que as entradas de remessas representam grande percentagem do Produto Interno Bruto estão o Líbano (54 por cento), Tonga (44 por cento), Tajiquistão (34 por cento), República do Quirguistão (33 por cento) e Samoa (32 por cento). “Por um lado, a crise ucraniana afastou a atenção da política global de outras regiões em desenvolvimento e da migração económica. Por outro, reforçou o apoio às comunidades de destino que deverão acolher um grande fluxo de migrantes”, disse Dilip Ratha, principal autor do relatório sobre migração e remessas e chefe do KNOMAD (Parceria Global de Conhecimento sobre Migração e Desenvolvimento). Em declarações proferidas antes do Fórum sobre a Migração Internacional que decorreu de 17 a 20 de Maio de 2022, na sede das Nações Unidas, em Nova Iorque, Dilip Ratha sublinhou que “a criação de uma forma de financiamento para a migração de apoio às comunidades de destino deve ser seria mente considerada. Esta iniciativa poderá também providenciar apoio financeiro às comunidades de origem que viveram a migração de retorno durante a crise da COVID-19.” Globalmente, o custo médio do envio de 200 dólares era de 6 por cento no primeiro trimestre de 2021, o dobro dos previstos 3 por cento, segundo a Base de Dados dos Preços das Remessas Mundiais do Banco. É mais barato enviar dinheiro para o Sul da Ásia (4,3 por cento) e mais caro enviar para a África Subsaariana (7 por cento). Os custos do envio de dinheiro para a Ucrânia eram elevados (7,1 por cento a partir da República Checa, 6,5 por cento da Alemanha, 5,9 por cento da Polónia e 5,2 por cento dos Estados Unidos). A boa vontade global relativamente aos refugiados e migrantes da Ucrânia abre uma oportunidade para desenvolver e experimentar programas para facilitar o seu acesso a empregos e serviços sociais nos países de acolhimento, aplicar medidas simplificadas contra a lavagem de dinheiro e o financiamento do terrorismo em pequenas transacções de remessas para ajudar a reduzir os custos das remessas e mobilizar o financiamento pela diáspora. A guerra na Ucrânia também afectou os sistemas de pagamentos internacionais com implicações para os fluxos de remessas transfronteiriças. A exclusão da Rússia do SWIFT acrescentou uma dimensão de segurança nacional à participação nos sistemas de pagamentos internacionais. “Baixar as taxas das remessas em 2 pontos percentuais poderá potencialmente traduzir-se em poupanças anuais de 12 mil milhões de dólares para os migrantes internacionais do países de baixo e médio rendimento, 400 milhões para migrantes e refugiados da Ucrânia”, acrescentou Dilip Ratha. “Os sistemas de pagamentos transfronteiriços, no entanto, deverão tornar-se multipolares e menos interoperáveis, desacelerando os progressos na redução das taxas de remessas”. Tendências regionais das Remessas Leste da Ásia e Pacífico - Os fluxos de remessas para esta região baixou 3,3 por cento, depois de uma queda de 7,3 por cento em 2020. Os fluxos representaram 133 mil milhões de Dólares em 2021, perto dos níveis de 2017. Excluindo a China, as remessas para a região aumentaram em 2,5 por cento em 2021. As remessas para as Filipinas beneficiaram da criação de empregos e dos ganhos salariais nos Estados Unidos onde vive um grande número de migrantes filipinos. Entre as economias cujas remessas constituem uma percentagem elevada dos seus PIBS estão Tonga, Samoa e as Ilhas Marshall, as Filipinas e Fidji. Excluindo a China, as entradas de remessas deverão crescer 3,8 por cento em 2022. A média do custo do envio de 200 dólares para a região caiu para 5,9 por cento no quarto trimestre de 2021, comparados com 6,9 por cento do ano anterior. Europa e Ásia Central - As entradas de remessas nesta região aumentaram 7,8 por cento em 2021, atingindo um pico histórico de 74 mil milhões de Dólares. O crescimento deveu-se em grande parte a uma forte actividade económica na União Europeia e à recuperação dos preços da energia. Em 2021 a Ucrânia recebeu entradas de 18,2 mil milhões de Dólares, constituídas por envios da Polónia, o maior país destinatário dos trabalhadores migrantes ucranianos. As transferências pessoais constituem uma fonte vital para as finanças e crescimento das economias da Ásia Central, para as quais a Rússia é a primeira fonte. Relativamente ao PIB, as receitas das remessas no Tajiquistão e na República do Quirguistão eram respectivamente de 34 e 33 por cento, em 2021. As projecções a curto prazo das remessas para a região, que deverão cair 1,6 por cento em 2022, são altamente incertas, dependendo da escala da guerra na Ucrânia e as sanções aos pagamentos da Rússia para o exterior. Em contraste, os fluxos de remessas para a Ucrânia deverão aumentar 20 por cento em 2022. A média dos custos do envio de 200 Dólares para a região caiu para 6,1 por cento no quarto trimestre de 2021 dos 6,4 por cento um ano antes. América Latina e Caraíbas - Os fluxos de remessas para a América Latina e as Caraíbas aumentou para 131 mil milhões de Dólares em 2021, mais 25,3 por cento do que em 2020 devido à forte recuperação de empregos para trabalhadores estrangeiros nos Estados Unidos. Entre os países que registaram dois dígitos de crescimento estão a Guatemala (35 por cento), Equador (31 por cento), Honduras (29 por cento), México (25 por cento), El Salvador (26 por cento), República Dominicana (26 por cento), Colômbia (24 por cento), Haiti (21 por cento) e Nicarágua (16 por cento). Os registos dos fluxos para o México incluem fundos recebidos por migrantes em trânsito das Honduras, El Salvador, Guatemala, Haiti, Venezuela, Cuba e outros. As remessas são importantes como fontes de divisas para vários países para os quais estes fluxos representam pelo menos 20 por cento do PIB, incluindo El Salvador, Honduras, Jamaica e Haiti. Em 2022, estima-se que as remessas cresçam 9,1 por cento, embora persistam riscos de queda. O custo médio do envio de 200 Dólares para a região manteve-se praticamente sem alteração nos 5,6 por cento no quarto trimestre de 2021, em comparação com o ano anterior. Médio Oriente e Norte de África - As remessas para os países desta região subiram 7,6 por cento em 2021 para 61 mil milhões de Dólares, devido aos ganhos robustos de Marrocos (40 por cento) e Egipto (6,4 por cento). Os factores que apoiaram os fluxos foram o crescimento económico nos países de acolhimento na União Europeia assim como a migração em trânsito que incrementou as entradas para países de acolhimento como o Egipto, Marrocos e Tunísia. Em 2022, os fluxos de remessas deverão baixar para um ganho de 6 por cento. As remessas há muito que se tornaram a maior fonte de financiamentos externos para os Países em desenvolvimento do Médio Oriente e Norte de África, representando 61 por cento do total de entradas em 2021. Os custos do envio de 200 dólares para o Médio Oriente e o Norte de África caiu para 6,4 por cento no último trimestre de 2021, dos 6,6 por cento um ano antes. Sul da Ásia - As remessas para o Sul da Ásia aumentaram 6,9 por cento para 157 mil milhões de dólares em 2021. Embora um grande número de migrantes do Sul da Ásia tivessem regressado aos países de origem devido ao surto da pandemia no início de 2020, a disponibilidade de vacinas e a abertura das economias do Conselho de Cooperação do Golfo permitiram um regresso gradual aos países de acolhimento em 2021, apoiando grandes fluxos de remessas. Um melhor desempenho económico dos Estados Unidos deu também um grande contributo ao crescimento em 2021. Os fluxos de remessas para a Índia e o Paquistão subiu 8 por cento e 20 por cento, respectivamente. Em 2022, o crescimento em entradas de remessas deverá desacelerar para 4,4 por cento. As remessas são a fonte dominante de divisas estrangeiras na região, com receitas mais de três vezes superiores ao nível de 2021. Com 4,3 por cento, o Sul da Ásia é a região do mundo com a média mais baixa de custos das remessas, embora isto seja ainda superior aos 3 por cento previstos. África Subsaariana - Os envios de remessas para a África Subsaariana aumentaram 14,1 por cento para 49 mil milhões de Dólares em 2021, depois de um declínio de 8,1 por cento no ano anterior. O crescimento das remessas deveu-se a uma forte actividade económica na Europa e nos Estados Unidos. As entradas registadas na Nigéria, o maior país beneficiário na região, subiram 11,2 por cento, em parte devido a políticas com vista à canalização das entradas através do sistema bancário. Países que registaram taxas de crescimento de dois dígitos incluem Cabo Verde (23,3 por cento), Gâmbia (31 por cento) e Kénia (20,1 por cento). Países em que o valor das entradas de remessas é significativo para o PIB incluem a Gâmbia (27 por cento), Lesotho (23 por cento), Comores (19 por cento) e Cabo Verde (16 por cento). Em 2022, as entradas de remessas deverão crescer 7,1 por cento devido à continuação das mudanças com vista ao uso de canais oficiais na Nigéria e aos elevados preços dos bens alimentares – os migrantes deverão enviar mais dinheiro para os países de origem que sofrem actualmente aumentos extraordinários nos preços da cesta básica. O custo do envio de 200 Dólares para a região era em média de 7,8 por cento no último trimestre de 2021, uma pequena diminuição relativamente aos 8,2 por cento um ano antes.

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