2022-06-01T07:00:00.0000000Z

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Media Nova

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CONSUMO

Muitos países enfrentam, neste momento, níveis crescentes de insegurança alimentar, revertendo anos de ganhos em termos de desenvolvimento, e ameaçando o cumprimento dos Objectivos do Desenvolvimento Sustentável até 2030. Mesmo antes da COVID-19 ter reduzido as receitas e interrompido as linhas de abastecimento, a fome aguda e crónica estava a aumentar devido a vários factores incluindo conflitos, condições sócio-económicas, fenómenos naturais, mudanças climáticas e pragas. O impacto da Guerra na Ucrânia acrescenta riscos para a segurança alimentar global, com a continuação dos elevados preços dos bens alimentares, nos tempos mais próximos, que se prevê venham a empurrar milhões de pessoas mais para a insegurança alimentar aguda. As economias estão lentamente a começar a recuperar da COVID19, embora continuem as incertezas e as perturbações. E com o agravamento da capacidade orçamental, a previsão para a segurança alimentar e nutricional para muitos países de baixo e médio rendimento é causa para grande preocupação. Enquanto a previsão para os fornecimentos globais de alimentos continua favorável, os preços dos bens alimentares aumentaram exponencialmente devido aos elevados preços de entrada que, combinados com os aumentos nos transportes e as perturbações no comércio provocados pela Guerra na Ucrânia, estão a aumentar os custos das importações. Isto atinge duramente os países pobres e em desenvolvimento, porquanto eles dependem grandemente das importações de bens alimentares. Na primeira semana de Maio de 2022, o Índice de Preços Agropecuários tinha subido 41%, comparado com Janeiro de 2021. Os preços do milho e do trigo estavam 54% e 60% mais altos, respectivamente, comparados a Janeiro de 2021, enquanto os preços do arroz estavam 14% mais baixos. Segundo a Previsão dos Mercados de Maté rias Primas para Abril 2022 do Banco Mundial, a Guerra na Ucrânia alterou os padrões globais de comércio, produção e consumo de formas que manterão os preços a níveis historicamente elevados até ao fim de 2024, agravando a segurança alimentar e a inflação. Vários países esperam o aumento da inflação dos preços de bens alimentares ao nível do comércio a retalho, reflectindo a escassez de mão de obra, uma subida pronunciada pelos preços dos fertilizantes, desvalorizações monetárias e outros factores. O aumento dos preços dos bens alimentares tem um impacto maior nas pessoas dos países de rendimento baixo e médio, porquanto eles gastam uma grande parte das suas receitas em alimentos do que as pessoas dos países de alto rendimento. Os preços dos bens alimentares já eram elevados antes, e a guerra está a elevá-los ainda mais. Os produtos que têm sido mais afectados são o trigo, o milho, óleo alimentar e fertizantes. Os mercados globais de matérias primas enfrentam riscos ascendentes através dos seguintes canais: redução dos fornecimentos de sementes, preços de energia mais elevados, preços mais elevados de fertilizantes e perturbações no comércio devido ao encerramento de portos importantes. Nos próximos meses, um grande desafio será o acesso a fertilizantes que poderão afectar a produção de muitas plantações em diferentes regiões. Os preços dos fertilizantes aumentaram em Março, cerca de 20%, desde Janeiro de 2022 e quase três vezes mais em comparação com o ano anterior. A Rússia e a Bielorússia são os maiores exportadores de fertilizantes, representando 38% dos fertlizantes de potássio, 17% de adubos compostos e 15% de adubos de nitrogénio. No dia 13 de Abril de 2022, os chefes do Grupo do Banco Mundial, do Fundo Monetário Internacional, do Programaalimentar Mundial das Nações Unidas e da Organização Mundial do Comércio divulgaram um comunicado conjunto apelando à comunidade internacional a uma acção urgente para tratar da insegurança alimentar, para manter o comércio aberto e apoiar os países vulneráveis, incluindo financiamento para responder a necessidades urgentes. Pesquisas via telefone feitas pelo Banco Mundial em 83 países mostram um número significativo de pessoas a ficar sem alimentos e a reduzir o seu consumo nos primeiros dois anos da pandemia da COVID-19. O consumo reduzido de calorias e a má-nutrição ameaça a saúde e as conquistas na redução da pobreza e podem ter um impacto significativo no desenvolvimento cognitivo das crianças. Entre 720 e 811 milhões de pessoas no mundo passaram fome em 2020, segundo o relatório das Nações Unidas sobre o estado da Segurança Alimentar e Nutricional no Mundo. Olhando para o meio do leque projectado (768 milhões) mais cerca de 118 milhões de pessoas enfrentavam fome crónica em 2020 do que em 2019. Usando um indicador diferente, que rastreia o acesso à alimentação adequada durante um ano, cerca de 2,37 mil milhões de pessoas (ou 37% da população global) tinha falta de acesso à alimentação adequada em 2020 – um aumento de 320 milhões em apenas um ano. Dados recentes confirmam também aumentos significativos do número de pessoas que enfrentam insegurança alimentar aguda em 2020-2021. Insegurança alimentar aguda é definida como quando a vida ou a subsistência de uma pessoa corre perigo imediato devido à falta de alimentos. Segundo a Rede Global contra as Crises de Fome, um número estimado de 161 milhões de pessoas passaram por níveis de “crises” de insegurança alimentar aguda em 2021, cerca de 4% mais do que no ano anterior. Adicionalmente, calcula-se que 227 milhões de pessoas passaram por “pressões” de insegurança alimentar aguda – a um passo da crise, em 2021, quase 7% mais do que ano anterior. A fome tendia a subir mesmo antes da pandemia da COVID-19 que exacerbou efeitos existentes de eventos climáticos extremos, conflitos e outros choques contra as oportunidades económicas. Dos 161 milhões de pessoas que passaram condições de crise em 2021, 81% (ou 132 milhões) viviam em países afectados por Fragilidade, Conflito e Violência.

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