TERESA MATOSO VÍCTOR

Académica ‘brilha’ na Índia com prémio de melhor pesquisadora.

Texto : Stela Cambamba Fotos : Pedro Nicodemos

2022-09-01T07:00:00.0000000Z

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Media Nova

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CAPA

A Professora Doutora Teresa Matoso Manguangua Víctor é Cientista, PHD em Engenharia Química, pela Universidade de Newcastle UponTyne (Reino Unido), rcentemente indicada para receber o “Prémio de Melhor Pesquisadora” de 2022, na área de Engenharia Química e Biotecnologia, em cerimónia que vai decorrer em Novembro, no Grandeur Hall, Breeze Residency, Tiruchirappalli, Tamil Nadu, Índia. É com esta académica que a revista Chiola conversou. Siga os trechos... Como é que correu o processo para que chegasse a concorrer para o Internacional Society for Scientific Network (ISSN)? Permita-me esclarecer-lhe que o prémioquemefoiatribuídonãoresultoudaparticipaçãonumconcurso.Eledecorredoreconhecimento dovalordasminhaspesquisascientíficaspublicadasemrevistadealto factordeimpacto.Aliás,noanúncio emquefuiinformadadapremiação, oInternacionalSocietyforScientific Network(ISSN),referiuquetemorgulho de escolher a minha pessoa para atribuição do “Prémio InternacionaldeMelhorPesquisadora”, na área de Engenharia Química e Biotecnologia, em função dos estudos desenvolvidos na produção eavaliaçãodedoisantibióticosnomeadamente“Prodigiosin”e“Actinorhodin”,sintetizadospelabactéria StreptomycesCoelicolorA3(2),sob fermentaçãoemestadosólido,utilizando cultura microporosa. Pode explicar melhor? Aproduçãoconvencionaldosanti bióticos nos bioreactores é produzidaemestadolíquido.Entretanto, a abordagem estratégica aplicada nesteprojectoéinovadora,porque se utilizou a fermentação em estadosólido,usandoummaterialmicroporoso,hidrofílico,inerte,enão tóxico. Contudo, os indicados são eleitos por seus pares pela contribuiçãoexcepcionaldadanoâmbito dasuapesquisa,emproldoavanço da ciência. Como é que resume essa distinção? Este galardão é resultado de estudos realizados no âmbito dos trabalhos do meu doutoramento na Universidade de Newcastle Upon Tyne,ReinoUnido,queincidiramsobreacriaçãoeinvençãodoreferido materialinerte,comaltahierarquia estruturadadosporos,elastómera com elevada permeabilidade, e a capacidadedeabsorçãodelíquidos, gases e absorção nano partículas. Como é que avalia o sector da engenharia química no país? Para responder esta pergunta teríamos que recuar um pouco na história da engenharia química, destacando o papel do engenheiro químico, como um projectista, gestor de processos industriais o que já é reconhecido desde o final do século XIX. De referir que, os avanços tecnológicos têm impulsionado a engenharia química, contribuindo para que essa se afirme como uma engenharia universal e abrangente. Como destacar este papel em Angola? O engenheiro químico tem um papel importante na fabricação de produtos imprescindíveis para a sociedade moderna. Também cabe ao engenheiro químico saber lidar com a formulação e a solução de problemas associados à indústria química, bem como trabalhar na operação e manutenção de sistemas (Engenharia de processos), estudar a dimensão de equipamentos, questões como a transferência de calor e de massa, entre outros aspectos que são fundamentais para o sector industrial, também deve ser capaz de resolver os problemas, conhecer, compreender e utilizar os princípios e as leis gerais da termodinâmica. Para esse pressuposto, teria de haver uma correlação com outros sectores? Angola sendo um país em desenvolvimento, as poucas indústrias existentes devem criar uma relação em consonância com a Academia, para que os académicos, pesquisadores e os estudantes desenvolvam um intercâmbio sob a forma de transferência de know-how, para dar respostas científicas e tecnológicas. Práticas já realizadas em outras geografias, com resultados excelentes alcançados. Desta forma, tendo em conta os projectos que o nosso governo tem traçado para os próximos anos, designadamente a construção das três refinarias e o projecto Angola LNG, considerando ainda a diversificação da economia nacional, com uma atenção especial ao sector agrícola, sou de opinião que deveria haver uma simbiose entre a Academia e Sector Industrial, bem com as outras actividades conexas por forma a permitir o contributo autorizado de peritos competentes, deste ramo do saber. Quer significar uma aposta nos recursos humanos existentes nas nossas universidades. Daí, os nossos currículos universitários devem sempre estar alinhados com os desafios e necessidades do nosso país. O que é que mais lhe preocupa nesta área? Como referi anteriormente, aquilo que me anima e constitui objecto da minha missão, enquanto docente universitária e pesquisadora, é ser capaz de transmitir aos meus alunos, não só os conteúdos programáticos curriculares, mas também sensibilizar os meus pares e a academia em geral que temos cada vez mais de ser capazes de criar e estimular o surgimento de equipas multidisciplinares por forma a atacarmos e resolvermos os nossos problemas em relação a esses processos. Como Professora Doutora “PHD”, o que tem feito para ultrapassar as dificuldades e as preocupações a nível da sua área? Procuro consciencializar-me que as dificuldades fazem parte do processo de crescimento de qualquer indivíduo, instituição e sociedade, por outro lado, tenho procurado partilhar o pengrandiosos samento e filosofia de vida nos mais variados fóruns, dentro e fora do país. Ao nível do país há condições favoráveis de desenvolver antibióticos? Diria que modestamente temos essas condições em potencial tendo em conta que estamos a formar alunos e capacidades que num futuro próximo podem ser usados para suprirem as necessidades que uma indústria farmacêutica, agrícola, pecuária necessita. A área de engenharia química está em franco desenvolvimento ou nem tanto? Como disse um sábio: “é andando que se faz o caminho, por isso estamos no processo e havemos de chegar”. Como sabemos, hoje o mundo é uma aldeia global e processos por vezes são muito mais céleres até porque a ciência não é um acto isolado nem o cientista uma ilha. Qual a província com maior possibilidade de se desenvolver a partir desta área? Todas as províncias sem excepção, uma vez que somos um país em franco desenvolvimento que muito naturalmente atrairá e absorverá, assim esperam os técnicos e peritos nesses ramos saídos das nossas universidades. Pode explicar-nos em miúdos o que podemos entender sobre o crescimento desta fase sólida? Como referi no início desta entrevista que os antibióticos convencionalmente são produzidos nos biorreactores sob a fermentação no estado líquido. No entanto, a abordagem estratégica adaptada nas pesquisas por mim realizadas, e que tiveram um carácter inovador, foi precisamente realizar-se, a referida pesquisa, utilizando um material inerte, microporoso, como micro biorreactor para intensificar o processo de produção dos antibióticos sob a fermentação em estado sólido. O que representa para si a distinção neste prémio? Modéstia à parte, devo dizer que este prémio representa a gratificação de uma carreira que começou, há mais de duas décadas. No entanto, este é como se fosse homenagem ao meu falecido pai (Neves Manguangua da Silva), a quem devo esta paixão pela Engenharia Química o qual nos anos idos de 1973- 1985, trabalhou como fiel de armazém, numa companhia britânica chamada Reckitt & Colman (Angola), LDA, em Luanda, na AV. Norte da grande Zona Industrial. Quem pretenda enveredar para esta área deve ter em conta necessariamente o quê? Primeiramente, paixão pela carreira. Entender a abrangência dessa área e ser capaz de perceber que o curso de Engenharia Química exige bastante em relação à Química, embora o foco do curso seja mais voltado à aplicação e optimização dos processos. Matérias como Química Geral, Química Analítica, Química Orgânica e Inorgânica, farão parte da sua rotina de estudos. Além disso, como visto, ao estudar Engenharia Química, para além das matérias de Química, conteúdos de Física e Matemática, serão estudados ao longo dos anos como cadeiras. Por outro lado, com o avanço da biotecnologia, é comum assistirse à incorporação de conteúdos de Ciências Biológicas, nos curuma sos de Engenharia Química. Quais serão os próximos passos? Falando dos próximos passos, como diz o povo, “o futuro a Deus pertence”, contudo se assim permitir, continuarei ligada à docência, não descurando a investigação científica e sempre comprometida na transferência do conhecimento às gerações vindouras. Uma palavra de incentivo para a sociedade angolana, sobretudo às mulheres... O meu conselho é para nunca desistirmos dos nossos sonhos, nem adoptarmos um pensamento de vitimização procurando culpar terceiros. O que é que o país ganha com esta distinção? Respondendo à sua pergunta, permita-me afirmar, desprovida de qualquer presunção, que, com este prémio, não apenas a minha pessoa é reconhecida mas também o país. Este ganha notoriedade porque é a nossa bandeira que estou a representar e continuarei a envergar. Cada vez que um cidadão singra, na sua área de saber ou actividade, ou mesmo no meio desportivo, somos todos nós que saímos vencedores.

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